A importância do profeta no estabelecimento da doutrina frente as revelações já recebidas e a questão da infalibilidade dos profetas
Quero mencionar uma história para ampliar o entendimento do conceito de que profetas vivos podem ampliar, ratificar, retificar e explicando o que está estabelecido nos livros de escrituras. Wilford Woodruff, o quarto Presidente da Igreja, relatou:
“Quero contar o que aconteceu em uma certa reunião a que assisti na cidade de Kirtland na minha juventude. Naquela reunião foram ditas certas coisas (…) a respeito dos oráculos vivos e da palavra escrita de Deus. (…) Um líder da Igreja se levantou e falou a respeito do assunto, dizendo: ‘Vocês têm a palavra de Deus diante de vocês aqui na Bíblia, no Livro de Mórmon e em Doutrina e Convênios; vocês têm a palavra de Deus, e vocês que dão revelações devem dá-las de acordo com esses livros, porque neles está escrita a palavra de Deus. Devemos restringir-nos a eles’.
Quando ele terminou, o irmão Joseph virou-se para o irmão Brigham Young e disse: ‘Irmão Brigham, quero que você suba ao púlpito e nos diga qual é o seu ponto de vista referente aos oráculos vivos e a palavra escrita de Deus’. O irmão Brigham foi até o púlpito, pegou a Bíblia e a colocou na sua frente; pegou o Livro de Mórmon e o colocou na sua frente; pegou o livro de Doutrina e Convênios e o colocou na sua frente, então disse: ‘Aqui está a palavra escrita de Deus para nós, referente à obra de Deus desde o princípio do mundo, quase, até nossos dias’, disse ele. ‘Mas quando comparados aos [oráculos] vivos, esses livros nada significam para mim; esses livros não transmitem a palavra de Deus diretamente para nós, como as palavras de um Profeta ou de um homem que possui o Santo Sacerdócio em nossos dias e em nossa geração. Prefiro ter os oráculos vivos a ter todos os escritos dos livros’. Esse foi o rumo que tomou o seu discurso. Quando terminou, o irmão Joseph disse para a congregação: ‘O irmão Brigham disse-lhes a palavra do Senhor e disse-lhes a verdade’.” [1]
A história, conforme contada pelo Presidente Wilford Woodruff, não menciona o nome daquele primeiro líder que discursou, mas sabemos por outros registros que se tratava de Hyrum Smith, irmão do Profeta Joseph Smith. Na época, Hyrum servia como Patriarca e Presidente Assistente na Primeira Presidência [2]. Ele estava preocupado com os rumores sobre a prática da poligamia que circulavam entre os membros. Após essa ocasião em que Brigham discursou, Hyrum compreendeu melhor a doutrina da revelação moderna:
“Quando Brigham terminou, ele sabia que seu sermão havia tocado Hyrum. Hyrum se levantou e pediu que os santos o perdoassem. Brigham estava certo, disse ele. Por mais valiosas que as escrituras fossem, elas não substituíam um profeta vivo.” [3]
Consequentemente Hyrum aprendeu que o Presidente da Igreja tinha autoridade para acrescentar luz e entendimento às escrituras, podendo ensinar e esclarecer verdades que, embora não estejam diretamente registradas, são reveladas conforme a necessidade da época.
Líderes da Igreja podem cometer erros. O Élder Bruce R. McConkie, sem dúvida um dos maiores estudiosos das escrituras, foi um dos líderes que, em décadas anteriores, escreveu e defendeu a restrição do sacerdócio aos homens de ascendência africana. Na época da revelação recebida em 1978, posteriormente incluída como Declaração Oficial 2 em Doutrina e Convênios, ele servia como membro do Quórum dos Doze Apóstolos. Após essa revelação, ele reconheceu humildemente a mudança e ofereceu este poderoso testemunho:
“Há declarações em nossa literatura, feitas pelos primeiros irmãos, que interpretamos como significando que os negros não receberiam o sacerdócio na mortalidade. Eu mesmo disse essas coisas... Tudo o que posso dizer sobre isso é que chegou a hora de os incrédulos se arrependerem, se alinharem e acreditarem em um profeta vivo e moderno. Esqueçam tudo o que eu disse, ou o que o Presidente Brigham Young, o Presidente George Q. Cannon ou qualquer outro tenha dito em dias passados que seja contrário à revelação atual.
Falamos com entendimento limitado e sem a luz e o conhecimento que agora vieram ao mundo. Recebemos a verdade linha sobre linha, preceito sobre preceito. Agora, recebemos uma nova onda de inteligência e luz sobre este assunto específico, que dissipa toda escuridão, todas as visões e todos os pensamentos do passado. Eles não importam mais.
Não faz a mínima diferença o que qualquer pessoa tenha dito sobre a questão dos negros antes de 1º de junho de 1978. É um novo dia, uma nova ordem, e o Senhor agora deu a revelação que traz luz ao mundo sobre esse tema. Quanto a quaisquer fragmentos de luz ou partículas de escuridão do passado, nós os deixamos para trás.
Agora fazemos o que a antiga Israel fez quando o Senhor disse que o evangelho deveria ser levado aos gentios: esquecemos todas as declarações que limitavam o evangelho à casa de Israel e passamos a levá-lo aos gentios.” [4]
Embora o Élder McConkie tenha se referido, mais especificamente, a declarações equivocadas sobre o tempo e a natureza da proibição do sacerdócio, sua reflexão oferece um princípio mais amplo: devemos abandonar interpretações pessoais, tradições culturais ou crenças não canonizadas que estejam em desacordo com a revelação moderna. Em outras palavras, doutrinas não oficializadas — ou que não foram declaradas de forma unânime pela Primeira Presidência e pelo Quórum dos Doze Apóstolos — não devem ser tratadas como verdades eternas. O evangelho é revelado gradualmente, e a luz presente sempre substituirá a ignorância do passado. Isso reforça a necessidade de seguir os profetas vivos, reconhecendo que a revelação contínua pode corrigir entendimentos anteriores, por mais enraizados que estejam na cultura religiosa.
Apesar de crermos que os profetas são homens sujeitos ao erro, acreditamos que são infalíveis quando estão a serviço de Deus. O Profeta Joseph smith disse:
“Eu nunca disse que era perfeito, mas não há erro nas revelações que ensinei”[5]
O Presidente da Igreja não vai desencaminhar os santos de Deus. O Presidente Wilford Woodruff disse:
"O Senhor jamais permitirá que eu ou qualquer outro homem que presida esta Igreja vos desvie do caminho verdadeiro. Isso não faz parte do plano. Não é a intenção de Deus. Se eu tentasse fazê-lo, o Senhor me afastaria de meu lugar, o mesmo acontecendo com qualquer outro que tentasse afastar os filhos dos homens dos oráculos de Deus e de seus deveres." [6]
"Nenhuma decisão emana das deliberações da Primeira Presidência e dos Doze sem unanimidade total entre todos os envolvidos. No início da consideração de assuntos, pode haver divergências de opinião. Isso é esperado. Esses homens vêm de origens diferentes. São homens que pensam por si mesmos. Mas, antes que uma decisão final seja tomada, chega-se a uma unanimidade de pensamento e de voz." [7]
"Então, depois de um tempo, a conversa deu voltas e eles começaram a concordar. E eu vi a coisa mais incrível. Aqui estavam essas pessoas muito fortes, muito inteligentes, todas com opiniões diferentes; de repente, as opiniões começaram a se alinhar. E eu pensei: ‘Eu vi um milagre. Vi a unidade surgir desse tipo maravilhoso e aberto de troca que nunca tinha visto em todos os meus estudos sobre governo, negócios ou qualquer outro lugar.’" [8]
"Com inspiração divina, a Primeira Presidência (o profeta e seus dois conselheiros) e o Quórum dos Doze Apóstolos (o segundo mais alto corpo governante da Igreja) aconselham-se mutuamente para estabelecer doutrinas que sejam proclamadas de forma consistente nas publicações oficiais da Igreja. Essa doutrina encontra-se nos quatro “obras padrão” das escrituras (a Bíblia Sagrada, o Livro de Mórmon, Doutrina e Convênios e Pérola de Grande Valor), bem como em declarações e proclamações oficiais e nas Regras de Fé." [9]
“o objetivo não é simplesmente o consenso entre os membros do conselho, mas a revelação de Deus. É um processo que envolve tanto a razão quanto a fé para se obter a mente e a vontade do Senhor.” [10]
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