Os três requisitos para novas escrituras
O primeiro requisito para admissão de uma nova escritura canonizada é que a instrução ou conhecimento deve vir do Presidente da Igreja.
Desde o início da Restauração, o Senhor estabeleceu uma ordem clara quanto à revelação e à administração de Sua Igreja. Essa ordem é central para avaliar qualquer alegação de novas revelações. O profeta Joseph Smith buscou orientação do Senhor. Em resposta, recebeu a revelação registrada em Doutrina e Convênios 28, dirigida a Oliver Cowdery, que também tinha acreditado nele:
Hiram Page era um dos Oito Testemunhos do Livro de Mórmon e um dos primeiros membro da Igreja. Casado com uma irmã de David Whitmer, ele fazia parte do círculo íntimo de Joseph Smith. No final de 1830, Hiram Page começou a receber supostas revelações por meio de uma pedra. Vários membros da Igreja acreditaram nele.
“Ninguém será designado para receber mandamentos e revelações nesta igreja, a não ser meu servo Joseph Smith, Jun., pois ele as receberá como Moisés.”
— Doutrina e Convênios 28:2
“E tu [Joseph Smith] serás ordenado por ele, e por ele serás confirmado para receber revelações para a igreja, tanto como para as chaves do reino.”
— Doutrina e Convênios 43:2-3
Estas escrituras estabelecem que, durante a vida de Joseph Smith, somente ele era autorizado a receber revelações doutrinárias para a Igreja. Isso estabeleceu um padrão organizacional e revelatório claro.
O Elder Dale G. Renlund contou:
“Há alguns anos, recebi um telefonema de uma pessoa que havia sido presa por invasão. Esse homem me disse que havia sido revelado a ele que outras escrituras foram enterradas sob o andar térreo de um edifício em que ele tentou entrar. Ele alegava que, assim que obtivesse a escritura adicional, sabia que receberia o dom da tradução, traria à tona novas escrituras e formaria a doutrina e a direção da Igreja. Eu disse que ele estava errado, e ele implorou que eu orasse a respeito. E eu disse que não faria aquilo. Ele ficou verbalmente abusivo e encerrou o telefonema.
Eu não precisava orar sobre aquele pedido por uma razão simples, porém profunda: somente o profeta recebe revelação para a Igreja. Seria “contrário ao sistema de Deus” que outras pessoas recebessem essa revelação, que pertence à [mordomia] do profeta.” [1]
O Presidente Harold B. Lee (1899–1973) declarou que os santos nunca precisaram ser enganados, pois o Senhor estabeleceu um canal de instrução inequívoco:
“Quando há algo a ser dito que difere do que o Senhor já nos disse antes, Ele o dirá ao profeta, não a um João, José ou Manoel pedindo carona na estrada, como já ouvi contarem, tampouco a alguém que desmaiou e falou de uma revelação depois que voltou a si, como conta outra história. Eu já disse uma vez e repito: ‘Você acha que, enquanto o Senhor tiver Seu profeta na Terra, Ele vai utilizar subterfúgios para revelar coisas a Seus filhos? É para isso que Ele tem um profeta e, quando Ele tiver alguma coisa para revelar à Igreja, Ele dirá ao Presidente, e o Presidente fará com que os presidentes das estacas e missões, bem como as Autoridades Gerais fiquem cientes; e eles, por sua vez, vão comunicar às pessoas qualquer mudança’” [2]
Outro princípio doutrinário fundamental é o da sustentação pública ou do “voto comum” dos membros da Igreja.
“Todas as coisas serão feitas por comum acordo na igreja, pela oração da fé.”
— Doutrina e Convênios 26:2
“Pois todas as coisas devem ser feitas em ordem, e por consentimento da igreja, por oração da fé.”
— Doutrina e Convênios 28:13
O historiador Richard L. Bushman, em Joseph Smith: Rough Stone Rolling, observa que:
“A revelação era recebida por Joseph Smith, mas tornava-se escritura e doutrina oficial da Igreja apenas quando aceita em conferência por voto comum.”
— (Bushman, 2005, p. 151 – tradução não-oficial)
Isso significa que nenhuma revelação era imposta à Igreja sem que ela a aceitasse formalmente. Portanto, qualquer “nova revelação” que não passe por esse processo não está de acordo com o padrão revelado por Deus na Restauração.
Durante a vida de Joseph Smith, as seguintes obras eram consideradas escritura:
- A Bíblia Sagrada
- O Livro de Mórmon
- Doutrina e Convênios (versão em vigor até 1844) [3]
Na Conferência Geral de outubro, a Pérola de Grande Valor foi formalmente canonizada como uma das escrituras-padrão da Igreja, junto com a Bíblia, o Livro de Mórmon e Doutrina e Convênios. A canonização foi feita por voto comum, em harmonia com Doutrina e Convênios 26:2.
Doutrina e Convênios continuou sendo atualizado com novas revelações desde sua primeira edição. O último acréscimo ocorreu em 1978, com a Declaração Oficial 2.
Essas obras eram aceitas pela Igreja sob orientação do Profeta e, como regra, ele mesmo supervisionava sua publicação e canonização.
Qualquer nova “escritura” que alegue autoridade sem se conformar a esses padrões — ou que contradiga o conteúdo destas — não é admissível à luz do que foi estabelecido na Igreja sob Joseph Smith.
Caso surja uma nova escritura, ela precisará obrigatoriamente ser apresentada em uma Conferência Geral ou Assembleia Solene, para ser votada e aceita como parte do cânone oficial de textos sagrados.
O terceiro e último requisito para que uma nova revelação seja reconhecida como autêntica e inspirada é que ela deve estar em plena harmonia com os princípios já revelados pelo Senhor. Essa doutrina será estabelecida pela voz unida da Primiera Presidência e do Quórum dos Doze Apóstolos.
Isso não significa que a revelação não possa ampliar o entendimento, introduzir novas expressões, esclarecer doutrinas ou aprofundar perspectivas sobre a verdade eterna. Pelo contrário, o Senhor frequentemente “dará aos filhos dos homens linha sobre linha, preceito sobre preceito” (2 Néfi 28:30), conforme eles estiverem preparados para receber mais luz.
Contudo, essa expansão deve ser coerente com as verdades já reveladas e não pode contradizer os fundamentos do evangelho eterno. Uma revelação que negasse doutrinas essenciais previamente confirmadas pelas escrituras e pelos profetas vivos não seria proveniente do mesmo Espírito que revelou essas verdades. Como o Senhor declarou:
“E o Espírito é o mesmo, ontem, hoje e para sempre.” (2 Néfi 2:4)
Assim, a continuidade doutrinária é um critério indispensável na validação de qualquer nova revelação. A verdadeira revelação de Deus edifica, esclarece e complementa a verdade, sem jamais contrariá-la.
É verdade que Deus trabalha com os homens segundo a sua fé, concedendo luz conforme suas necessidades. A razão de termos profetas vivos é justamente a constante necessidade de recebermos conhecimento e poder vivos provenientes de Deus. O Presidente John Taylor ensinou:
“Precisamos de uma árvore viva; uma fonte viva; conhecimentos atualizados procedentes do sacerdócio vivo dos céus, por intermédio do sacerdócio da Terra. (…) Sempre foi necessário receber novas revelações, adequadas à situação específica na qual a igreja ou indivíduo estivesse.
As revelações feitas a Adão não ensinaram Noé a construir a arca; nem as de Noé diziam a Ló que abandonasse Sodoma; e nenhuma delas falava da saída dos filhos de Israel do Egito. Essas pessoas receberam as revelações de que precisavam (…). O mesmo tem de acontecer conosco.”
— Ensinamentos dos Presidentes da Igreja: John Taylor, 2001, p. 158
Um exemplo moderno de como a Igreja é guiada por revelação contínua pode ser visto na organização e reestruturação dos quóruns dos Setentas. Originalmente organizados com base em um modelo estabelecido por Joseph Smith, os quóruns dos Setentas passaram por diversas adaptações ao longo dos anos — incluindo sua dissolução parcial no final do século XIX e reorganização no século XX.
Em 1995, o Presidente Gordon B. Hinckley, por revelação, anunciou a criação de quóruns adicionais de Setentas com autoridade geral, estabelecendo os Quóruns dos Setentas de Área para fortalecer a liderança da Igreja em nível regional. Essas mudanças não substituíram doutrina alguma, mas foram adaptações reveladas que responderam às crescentes necessidades administrativas e espirituais da Igreja mundial. Elas exemplificam como o Senhor continua a orientar Seu povo por meio de revelações modernas, específicas e oportunas.
Mudanças recentes sob a liderança do Presidente Russell M. Nelson são outro notável exemplo de revelação moderna — mudanças que ajustam práticas, ampliam o entendimento doutrinário, mas não contradizem os fundamentos teológicos da nossa fé. [4]
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